NÃO-VIOLENCIA, UM
ESTILO DE VIDA
Quando Martin Luther
King Jr. foi para o seminário, acreditava que a mensagem de Jesus ajudava as
pessoas a se tornarem indivíduos amorosos, compassivos, honestos, corajosos,
pacientes e gentis. Mas não entendia como tais qualidades pessoais poderiam ser
relevantes no tocante aos grandes males sociais do seu tempo: racismo, guerra,
opressão, injustiça. Ele então estudou Gandhi e o movimento de libertação da
Índia. Ali encontrou, em grande escala, um movimento de libertação que resistiu
ao maior império daquele tempo usando métodos consistentes com o caminho da
verdade e do amor. King depois escreveu que o indiano Gandhi mostrou a ele que
sua incredulidade em relação ao poder do amor era infundada. “Vim a perceber
pela primeira vez que a doutrina cristã do amor, operando pelo método gandhiano
da Não-Violência, era uma das armas mais poderosas disponíveis para os povos
oprimidos em sua luta pela liberdade: “Gandhi demonstrou de forma poderosamente
atual as implicações do Sermão da Montanha”.
Gandhi ensinou que
Deus é Verdade e a Verdade é Deus, e que a natureza do poder está fundada na
Verdade mesma. Gandhi intitulou sua autobiografia de “Minha Vida e Minhas
Experiências com a Verdade”, e nela escreveu que: “Para as pessoas de boa
vontade o único nome de Deus é Verdade”. Os tiranos e opressores temem a
verdade, por isso constroem seu poder sobre mentiras, golpes, censura e
violência. A arma mais poderosa que os pobres e oprimidos possuem para lutar
não é o uso maior nem mais ardiloso da violência, nem mentiras em
contra-ataque, nem propaganda, mas a Verdade mesma. O mal pode ser vencido com
aquilo que Gandhi chamava de satyagraha. Satya é a verdade que se equipara ao
amor. Graha é força. Satyagraha é a força da verdade ou a força do amor. Hoje o
termo não violência vem sendo usado no lugar de satyagraha.
Antes de Gandhi o
movimento de libertação da Índia era subterrâneo, marcado por ódio,
assassinatos e bombardeios. Gandhi transformou a luta pela liberdade num
movimento aberto, que diz a verdade, não-violento. Leis opressivas e
autoridades cruéis eram confrontadas com ações corajosas, marcadas pela verdade
e pelo amor. Enfrentar o ódio e a violência com ódio e violência é tornar-se
igual ao inimigo. O sofrimento não merecido por parte do seguidor da Verdade é
fonte de redenção. Gandhi ensinava que não se deve trabalhar por uma causa
nobre através de meios condenáveis, pois os meios e os fins estão interligados assim
como a semente e a árvore. Para construir a sociedade sem classes ou para obter
um crescimento rápido do produto interno do país, o terror e a repressão
parecem ser justificáveis. Não, dizia Gandhi. “Se cuidamos dos meios, o fim
cuidará de si mesmo… Sempre temos controle sobre os meios, nunca sobre os
fins.”
Martin Luther King
Jr. descobriu o poder das percepções de Gandhi na luta pelos direitos civis.
Descobriu que Gandhi havia penetrado no coração mesmo da mensagem de Jesus: o
sofrimento por amor e a Cruz. Isto contrasta muito com o cristianismo popular
que fala de Jesus mas ignora Sua mensagem. O cristianismo é popularmente
apresentado como uma doutrina em que se deve acreditar ao invés de um caminho
de amor a ser vivido. A Bíblia não diz que “O verbo se tornou palavras”. Diz
que “O Verbo se fez carne”. Ser um seguidor de Jesus significa viver uma vida
de amor e levar a cruz. King via a cruz como “o poder de Deus para a salvação
individual e social”. “Amar o inimigo”, “dar a outra face”, “andar a segunda
légua”, “vencer o mal com o amor” eram ensinamentos de Jesus para um povo
oprimido que vivia sob o jugo cruel do Império Romano. King ajudou os negros
oprimidos a enxergarem que esta mensagem era dirigida a eles também. Juntos
eles cantavam “We shall Overcome” (Nós Venceremos). E venceram! Balas e jatos
de água, cães policiais e cacetetes elétricos não conseguiram detê-los. Suas
igrejas foram queimadas, e suas casas bombardeadas. Eles perderam seus empregos
e foram levados para a cadeia. Mas permaneceram fiéis ao seu compromisso com a
não violência. Descobriram que a verdade e o amor eram mais fortes que qualquer
coisa que o inimigo pudesse fazer contra eles.
Gandhi e King nos
ensinaram a olhar de modo novo para a natureza do poder. Muitos pensam
erroneamente que o poder vem da violência, e que pode ser derrotado somente por
violência maior. Gandhi disse que “A força não vem da capacidade física mas de
uma vontade indomável”. A justiça da causa indiana deu ao seu povo uma vontade
mais forte que o poderio bélico britânico.
O professor Gene
Sharp, em sua obra de treze volumes A Política da Ação Não- Violenta, diz que a
essência do poder não está no poderio militar, mas no povo. Ele é governado
pelo Estado até o ponto em que aceita cooperar com o Estado. O Estado perde seu
poder quando o povo retira ou diminui sua cooperação. Como escreveu Jose Rozal,
o grande patriota Filipino: “Não há escravidão onde não houver escravos
dispostos a servir”.
Sharp prossegue,
examinando a não-violência como método para resistir ao mal e sobrepujar a
injustiça. Embora Gandhi e King sejam os mais famosos expoentes da não –
violência, Sharp procura exemplos de não-violência na história e encontra
numerosos casos de: protestos, persuasão, não-cooperação e intervenção
não-violentos. Ele documentou 198 métodos específicos de não-violência, e
defende a tese de que são formas exeqüíveis e práticas de lidar com a opressão
¯ mesmo desconsiderando a base religiosa para a não-violência de Gandhi e King.
Sharp mostra como pessoas comuns, que não eram pacifistas nem santos, usaram a
ação não-violenta e “passaram a ganhar salários mais altos, quebraram barreiras
sociais, mudaram políticas governamentais, frustraram invasões, paralisaram um
império e dissolveram ditaduras”.
Quais são esses
métodos? Somente alguns tipos representativos serão mencionados aqui, para
sugerir a variedade e o escopo da não-violência.
INVESTIGAÇÃO: Ao
combater a injustiça, a simples revelação da verdade – sobre mentiras
governamentais, brutalidade policial, ou leis injustas, por exemplo – pode ser
tremendamente poderosa. Nada afugenta a escuridão como a luz, nada enfraquece a
falsidade como a verdade. A investigação cuidadosa e honesta ajuda a divulgar a
verdade para um grupo maior de pessoas. Mesmo as vítimas diretas podem às vezes
desconhecer a extensão de sua opressão antes que seja feita uma coletânea séria
dos fatos. Richard Nixon tinha grande poder antes da investigação de Watergate
erodir esse poder. A Glasnost (transparência) pôs a público a censura e
mentiras que vinham sendo usadas no bloco soviético e acelerou o fim do
controle totalitário.
EDUCAÇÃO: Para
que a investigação tenha sucesso, a notícia deve se espalhar para um círculo
cada vez maior de pessoas. A educação não vem apenas da sala de aula e dos
livros; pode vir de um evento, um folheto ou uma palavra falada que comunica a
verdade. Quando reinava a lei marcial nas Filipinas, um boletim religioso
chamado Signs of the Times documentou questões importantes que não saíam nos
jornais. Quando o boletim foi cassado pelo governo, outro boletim, com nome
diferente, apareceu. Quando os exemplares chegavam ao correio, antes mesmo de
serem postados, eram passados de mão em mão. Quando finalmente este boletim teve
que parar de ser publicado, um bispo
continuou o trabalho através de suas cartas pastorais periódicas.
continuou o trabalho através de suas cartas pastorais periódicas.
NEGOCIAÇÃO: Devemos
tentar negociar um acordo para uma questão sempre que possível. Todas as
possibilidades devem ser tentadas. Se houver qualquer parte da lei na qual
possamos nos apoiar – por exemplo, a lei trabalhista – ela deveria ser a base
de negociações. Os africano-americanos na luta pelos direitos civis nos Estados
Unidos não recorreram a boicotes e ocupação de lugares reservados aos brancos antes
de terem se esforçado ao máximo para negociar um acordo. A negociação com uma
padaria do Mississipi fracassou e seus produtos foram boicotados. Por fim a
padaria se mostrou disposta a contratar africano-americanos e a negociação se
tornou viável e, por fim, bem sucedida.
BOICOTE: O
boicote é uma forma muito poderosa de desafiar uma situação injusta. Neste tipo
de ação cada indivíduo pode fazer a sua parte, e se desejar, continuar anônimo.
Gandhi liderou um boicote às roupas de origem britânica, e promoveu o
renascimento dos tecidos feitos a mão, o que ajudou de forma marcante para que
os indianos ganhassem autoconfiança. O United Farm Workers (Sindicato dos
Trabalhadores Rurais), o sindicato dos trabalhadores mais explorados dos
Estados Unidos, conseguiu que milhões de norte-americanos e europeus
boicotassem a alface, e depois de alguns anos, venceram a batalha desigual
contra fazendeiros ricos e poderosos.
DEMITIR-SE: Pedir
demissão para não participar de um sistema injusto é uma forma de enfraquecer
aquele sistema. Na Noruega durante a segunda guerra mundial milhares de
professores demitiram-se de seus cargos para não ensinar pelos padrões
nazistas. Toda a Suprema Corte resignou para não aplicar a lei nazista. Os
bispos e pastores deixaram seus cargos na igreja estatal; continuaram suas
atividades pastorais mas não sob o controle das forças de ocupação. Em 1963 no
Vietnam sob o jugo de Diem, 47 professores da Universidade de Hue exoneraram-se
após ser demitido o reitor católico da universidade. O reitor havia sido
demitido por apoiar a luta budista.
PROCISSÕES
RELIGIOSAS: Em alguns lugares as passeatas são ilegais, mas as procissões
religiosas permitidas. No Brasil uma fábrica foi construída às margens de um
rio, e o lixo tóxico começou a matar os peixes. Os pescadores sofriam com isso
e tentaram protestar, mas isso não foi permitido. Eles então foram assistidos
por um padre, que os levou em procissão da igreja até a fábrica. Cada pescador
levou um peixe morto e o depositou nos degraus da fábrica.
ORAÇÃO: Em 1942
os nazistas destruíram todos os monumentos da Polônia dedicados a heróis e
eventos patrióticos locais. Os cidadãos então começaram a visitar esses lugares
vazios e oferecer orações. Em 1966, 12 Quakers sentaram-se na galeria do Senado
Americano quando a guerra do Vietnam estava sendo preparada. Eles rezaram pela
paz até serem presos e levados dali.
BADALAR DOS SINOS: Quando
os russos invadiram a Tchecoslováquia em 1968, os sinos tocaram como sinal de
pesar em todo o país. Na França ocupada pelos nazistas o governo ordenou que
todos os sinos das igrejas tocassem para celebrar a vitória dos nazistas. Na
igreja de André e Magda Trocme, de onde se liderava os cidadãos que ajudavam os
judeus a escapar, a igreja estava trancada e guardada por uma mulher. Ela
encontrava-se em pé diante da igreja e quando a polícia veio e perguntou-lhe
porque os sinos não estavam tocando como ordenado pelo governo, ela disse:
“Estes sinos não são do governo, são de Deus!”
JEJUM: Gandhi
jejuava com freqüência como parte de sua luta não-violenta. Quando lhe diziam
que o jejum era coercitivo, ele dizia: “Sim, como a cruz”. Na Itália, quando
uma criança morria de desnutrição, Danilo Dolci jejuava para chamar a atenção
sobre a miséria generalizada e o desemprego. Recusava alimento até que o
governo começasse a fornecer ajuda. Em 1956 ele liderou 1000 pescadores
desempregados num jejum de 24 horas na praia. Chegou a jejuar contra a Máfia –
num barraco no bairro onde morava um chefão da Máfia; isto deu a muitos a
coragem de denunciar e fornecer provas dos crimes praticados pela Máfia.
GREVE: Em 1953
houve uma insurreição não-violenta de trabalhadores na Alemanha Oriental. Todas
as armas foram apreendidas pelos guardas da fábrica. Os líderes pediram aos
trabalhadores que não provocassem o exército russo. Numa das fábricas os
trabalhadores foram reunidos antes da chegada do exército. Alguns começaram a
xingar e cuspir nas tropas. Os líderes rapidamente instaram os trabalhadores a
voltar para os locais de serviço, mas sem trabalhar. Todos seguiram em ordem
para seus lugares.
SÍMBOLOS: Quando
os nazistas ordenaram a todos os judeus da Dinamarca que usassem a estrela
amarela de Davi no braço, o rei da Dinamarca andou de bicicleta por toda a
cidade de Copenhagen usando uma estrela. Logo a maioria dos dinamarqueses usava
uma estrela também, e os nazistas não conseguiam saber quem era judeu e quem
cristão. Quando as tropas mexicanas atiraram e mataram muitos estudantes na
praça da Capital, cruzes vermelhas foram pintadas pelas moças nos lugares onde
os estudantes tinham tombado. Apesar da praça estar cercada por tropas, a
população vinha depositar flores sobre as cruzes. Ao saírem dirigiam-se aos
soldados e diziam: “Porque apontam armas para nós? Vocês são oprimidos também”.
CANÇÕES: A
música pode ter um grande poder de mobilização da resistência popular. Os
alemães que resistiam ao nazismo de Hitler eram fortalecidos por sua canção:
“Die Gedanken sind frei” (Os pensamentos são livres). A canção ajudava as
pessoas a lembrarem que Hitler não podia controlar suas mentes se elas não
permitissem. No movimento pelos direitos civis, “We Shall Overcome” (Nós
Venceremos) e “O Freedom” (Ó Liberdade) levaram ânimo às pessoas durante os
dias mais difíceis de sua luta.
HUMOR: Até o
humor pode fortalecer a resistência de um povo. Depois da Segunda Guerra
Mundial os russos ocuparam a Áustria. Lá erigiram uma enorme estátua de Stalin,
mas o povo queria que os russos fossem embora. Certa noite os estudantes
amarraram uma mala à mão da estátua, e todos deram boas risadas. Sob o
comunismo os poloneses tinham uma piada a respeito daquela forma de governo:
“Qual a diferença entre comunismo e capitalismo? Sob o capitalismo, as pessoas
exploram as pessoas. Sob o comunismo é o contrário”.
NÃO-COOPERAÇÃO: Se
as pessoas têm poder que delegam ao estado pela aceitação de suas políticas,
então podem retirar este poder recusando-se a cooperar com estas políticas. Não
é preciso que isso assuma a forma de um desafio aberto. Pode ser uma obstrução
lenta, calculada, deliberada, daquelas leis e políticas ofensivas. Há muitos
exemplos de tal não-obediência generalizada. Muitos dinamarqueses e noruegueses
deixaram de cooperar com as ordens nazistas sobre os judeus. Oficiais nazistas
que se opunham a Hitler faziam “corpo mole”. Escreviam relatórios longos e
detalhados para clarificar – e atrasar – as ordens de Hitler. Eles se tornaram
ótimos em cometer errinhos bobos até que Goebels queixou-se amargamente de sua
“sabotagem silenciosa”. Certa vez alguns prisioneiros judeus escaparam e o
exército enviou um telegrama pedindo reforços urgentes. A jovem telegrafista
arriscou sua vida atrasando o envio do telegrama por quatro horas. Quando os
reforços chegaram, a fuga já tinha sido um sucesso. Um historiador do período
nazista escreveu: “Hitler, que desprezava a opinião do mundo e não dava ouvidos
à razão, podia ser totalmente enfraquecido por uma lenta obstrução”.
Estes são apenas uns
poucos tipos de não-violência ativa. Para aqueles que dizem: “Mas depois que tudo
foi tentado, a violência será necessária”, a questão é que nem tudo foi tentado
ainda. A maioria dos movimentos de mudança social mal começaram a experimentar
o verdadeiro poder e flexibilidade da não-violência. Geralmente, recorre-se à
não-violência por um ano ou dois, ou cinco, e depois recrudesce a violência
durante uma geração. Talvez uma das maiores descobertas do século XX é o
verdadeiro poder de movimentos não-violentos em massa; antes deste século a
maioria das tentativas de uso da não-violência era de indivíduos ou pequenos
grupos.
Outros dizem que a
não-violência é muito lenta. É verdade que algumas revoluções violentas são
muito rápidas, mas algumas são muito lentas. O mesmo vale para as revoluções
não-violentas. Alguns ditadores são depostos rapidamente por guerrilhas
armadas, mas outros caíram de repente diante de insurreições de estudantes
desarmados. Por outro lado, tanto Gandhi quanto Mao levaram 25 anos para
completar suas revoluções. Certamente a teoria da não-violência não é tão
poderosa quanto a ação violenta. O que estou dizendo é que devemos estar
dispostos a dedicar tanta disciplina, tempo e sacrifício à mudança não-violenta
quanto dedicamos à mudança violenta.
No mínimo, devemos
ser tão críticos no exame da violência quanto somos no questionamento da
não-violência. A violência foi amplamente testada durante o século XX. O mundo
hoje geme sob o peso do poderio militar. Mais da metade dos cientistas do mundo
estão empenhados em desenvolver mais métodos, mais assustadores, de destruiçãoem
massa. Aproliferação de armas nucleares aumenta diariamente a possibilidade de
uma catástrofe global. E se gastássemos ao menos 5% dos recursos hoje gastos em
violência em esforços de mudança pacífica?
Na luta pela
libertação da Índia, Gandhi foi pioneiro ao liderar uma nação à independência
através da filosofia da não-violência. No Japão, desde o bombardeio atômico de
Hiroshima e Nagasaki, os budistas japoneses têm sido incansáveis no seu
testemunho contra a guerra, a favor de um Japão sem armas e uma ordem mundial
de cooperação. Em Israel, o Oz Ve’ Shalom trabalha para que se reconheça que a
paz só será possível se houver justiça tanto para árabes como israelenses. Por
toda a América Latina a Comissão de Justiça e Paz trabalha por uma liberdade
inclusiva dos dois pilares da justiça e da paz.
A brutal ditadura de
Marcos nas Filipinas foi derrubada por uma massa de pessoas desarmadas, que
simplesmente se recusaram a cooperar com suas imposições, e invadiram as ruas
numa revolução popular sem precedentes. Em 1989 e 1990 os governos totalitários
do Leste Europeu caíram, não devido a um ataque militar, mas diante do poder
desarmado da população. A luta que continua ali e na antiga União Soviética
pela democracia são exemplos extraordinários do que Vaclav Havel chamou “o
poder dos sem-poder”.
Estes são apenas
alguns exemplos das “experiências com a Verdade” no século XX. Estes exemplos
abriram o caminho da não-violência ativa para tratar dos problemas de guerra e
opressão que se arrastam há séculos. Muitas vezes são poucos esses movimentos,
operando em terreno não mapeado. Mas deles começam a emergir as implicações
infinitas do amoroso propósito de Deus para a raça humana.
DECÁLOGO PARA UMA
ESPIRITUALIDADE DA NÃO-VIOLÊNCIA
* Aprender a
reconhecer e a respeitar “o sagrado” (“aquilo que é Deus” como dizem os
Quakers) em cada pessoa, nós incluídos, e em cada parcela da criação. Os atos
da pessoa não-violenta ajudam a libertar este “divino” no nosso opositor,
tirando-o da obscuridade e do cativeiro.
* Aceitar-me a mim mesmo
em profundidade, “quem sou eu”, como todos os meus dotes e riquezas, com todas
as minhas limitações, os meus erros, as milhas falhas e as minhas fraquezas; e
reconhecer que sou aceito por Deus. Viver na verdade de mim mesmo, sem orgulho
em excesso, com menos desilusões e com menos falsas expectativas.
* Reconhecer que
aquilo de que me ressinto e até detesto noutra pessoa, vem da dificuldade de
admitir que esta mesma realidade também viveem mim. Reconhecere começar a
renunciar à minha própria violência, que se torna evidente quando começo a
observar minhas palavras, os meus gestos e as minhas reações.
* Renunciar ao
dualismo, à mentalidade “nós-eles” (maniqueísmo). Isto divide-nos em “gente
boa-gente má” e leva-nos a demonizar o adversário. Também é a raiz do
autoritarismo e do comportamento de exclusão. Provoca o racismo e possibilita o
conflito e até a guerra.
* Encarar o medo e
tratá-lo com amor, não apenas com coragem.
* Entender e aceitar
o fato de que a “Nova Criação”, a edificação da “Comunidade Bem Amada” só pode
avançar com outros, porque nunca é uma atuação individualista. Isto requer
paciência e capacidade para perdoar.
* Ver a nós mesmos
como parte integrante de toda a criação, em favor da qual promovemos um
relacionamento de amor e não de dominação, recordando que a destruição do nosso
planeta é um problema profundamente espiritual e não simplesmente um problema
científico ou tecnológico. Somo um só.
* Estarmos prontos a
sofrer, até mesmo com alegria, ao sabermos que estamos ajudando a libertar o
divino que existe nos outros. Isto inclui a aceitação do nosso lugar e momento
na história, com os seus traumas e as suas ambigüidades.
* Ter a capacidade
para a celebração, para a alegria, quando a presença de Deus já tiver sido
aceita e, quando não o tiver, ajudar a descobrir e reconhecer esse fato.
* Abrandar a marcha,
ser paciente, plantando sementes de amor e perdão nos nossos próprios corações
e à nossa volta. Pouco a pouco, cresceremos no amor, na compaixão e na
capacidade de perdoar.
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